Já se foi o tempo em que se tinha gasolina pura em todos os postos de combustíveis do Brasil. Para aumentar a octanagem do combustível e diminuir a poluição produzida pelos motores à combustão, o álcool é cada vez mais adicionado na gasolina. Hoje em dia a gasolina tem 27% de álcool anidro, mas o Congresso Nacional está aprovando decreto para aumentar essa mistura em 30% até 2022 e até 40% até 2030! Isso se os postos cumprirem à risca sem adicionar mais nada, como aditivos, por exemplo. Isso pode deixar o resultado – se for adulterada ainda por cima – com cerca de apenas 60% de gasolina de verdade. Os carros antigos que o digam, pois seus carburadores não foram feitos para combustão com tanta mistura, em uma época que podia ter baixa taxa de compressão. Nos dias de hoje a injeção eletrônica e alta compressão proporcionam bons motores flex (bi-combustível) que utilizam bem o combustível misturado.

 

Abastecer com álcool, gasolina comum, aditivada ou podium?

Vamos primeiramente conhecer todos os tipos:

Gasolina comum

É a gasolina pura (tecnicamente chamada de tipo A) misturada a uma proporção de 27% de álcool anidro (atualmente) e aditivos que aumentam sua resistência à detonação (octanagem). Seu nome técnico é gasolina tipo C, e sua octanagem é 87 (IAD). E tem prazo de validade: em três meses a gasolina começa a perder suas propriedades, então até aquela do “tanquinho” nos primeiros carros flex precisa ser trocada se não for usada em 3 meses.

O etanol

O nosso álcool, vendido como Etanol E100 na verdade é um combustível considerado como E95 pois contêm aproximadamente 5% de água em sua composição. A água misturada resulta da destilação azeotrópica do etanol e ela ajuda em altas cargas (com o motor cheio), pois é necessário enriquecer menos a mistura (ou seja, usa-se menos combustível)  para manter a temperatura de escape dentro dos limites dos componentes. O motor a álcool gera mais torque pois a combustão está quase sempre com a sua fase posicionada de forma otimizada.

Crédito da foto: Marco Escada

Por que tem álcool na gasolina brasileira?

A ideia surgiu no Decreto-Lei 737, de 23 de setembro de 1938 que determinou a adição de 5% de álcool anidro à gasolina. Naquela época usava-se o chumbo tetraetila para aumento da detonação e octanagem. A adição do álcool anidro foi decretada depois por uma série de fatores relacionados à demanda por gasolina e ao estímulo da indústria sucroalcooleira. Mais tarde, quando se descobriu os efeitos nocivos do chumbo tetraetila, passamos a usar o álcool anidro como aditivo para aumentar a octanagem da gasolina.

E se tirarmos o álcool da gasolina para usar pura?

Dizem que é possível conseguir uma gasolina mais pura por decantação, adicionando água e separando a gasolina pura que irá decantar. Mas pode perder octanagem e boa parte dos aditivos. Sem o etanol a gasolina fica com IAD próximo de 84. Embora a pureza da gasolina dê impressão de uma melhora no rendimento do motor, com a redução da octanagem aumenta o risco de detonação da mistura antes do momento de ignição, o que causa a chamada “batida de pino”. Essa condição por período prolongado pode danificar o motor pelo aumento da temperatura nos cilindros. Essa batida também se dá por motor carbonizado, que fica com maior taxa de compressão devido a camada de carbono que se acumula no topo dos pistões. Algumas pessoas adicionam um pouco de álcool à gasolina, em motor flexível, o que aumenta sua octanagem e diminui a ocorrência de detonação (nos anos 60 e 70 era comum misturar as gasolinas comum e “azul”, de maior octanagem, até que ela cessasse).

Pode misturar os combustíveis num carro não-flex?

No motor à álcool você sentirá um ganho de potência e até uma maior economia de combustível. Isso ocorre devido ao maior poder calorífico da gasolina. Porém a adição de gasolina aumenta o risco de detonação, podendo causar quebras no sistema de combustão.

Já em um motor a gasolina o efeito será o contrário: com a adição do álcool o carro tende a perder potência e consumir mais combustível. Também devido ao poder calorífico, que nesse caso é menor.

Vale a pena pagar mais caro na gasolina premium?

É verdade que ela é superior, e o termo é adotado internacionalmente. Trata-se de uma gasolina com maior octanagem e menor proporção de álcool anidro. Segundo a regulamentação brasileira para ser classificada como premium, a gasolina precisa ter octanagem IAD igual ou superior a 91, e deve ter 25% de álcool anidro, em vez dos 27% das gasolinas comuns e aditivadas. Então realmente ela rende mais, mas cabe ao seu bolso saber se compensa.

 

Gasolina formulada?

Normalmente a gasolina é refinada do petróleo. Mas existe também a gasolina formulada através de outras técnicas químicas, geralmente preparada com uma mistura de correntes de hidrocarbonetos. que tem menor poder calorífico. Em 2015 a ANP deixou de exigir um padrão de densidade: e a gasolina formulada pode ser densa demais (mistura rica, ou seja, mais combustível do que ar, o que aumentará o desempenho, mas também o consumo). Ou pode a formulada ter densidade abaixo da faixa ideal (mistura pobre, ou seja, mais ar do que combustível). Isso ocasiona perda de desempenho e poderá causar detonação, que resultaria no superaquecimento do cilindro além da carbonização dos componentes internos.

 

E a gasolina aditivada?

Essa é a gasolina comum (com 27% de álcool anidro e octanagem IAD 87) misturada a aditivos detergentes, dispersantes e lubrificantes. Ela serve basicamente para manter seu motor sempre limpo e impedir que ele venha a apresentar problemas de alimentação em longo prazo. Mais recentemente os distribuidores também passaram a incluir aditivos redutores de atrito (lubrificantes), para auxiliar a redução do desgaste das partes móveis do sistema de combustível. Então temos apenas cerca de 69% de gasolina nessa mistura toda.

O motor não ganha potência com a gasolina aditivada, mas pode ocorrer a recuperação de parte da potência perdida pela remoção de parte da sujeira nos bicos e a atomização dos bicos volta a sua condição normal.

Usar a gasolina aditivada para limpar um motor que já está sujo não é recomendado: quando se passa a usar gasolina aditivada em substituição à comum, os depósitos existentes no sistema de combustível , admissão e câmaras de combustão podem se desprender em placas e entupir filtros, bicos (ou giclês) e dutos de óleo.

Pode-se colocar aditivos avulsos comprados separadamente. Mas o ideal é calcular a densidade dos aditivos, combinada à densidade da gasolina e chegar a uma concentração dos aditivos de 0,5 a 1% peso por peso.

Algumas marcas de gasolinas aditivadas de octanagem comum são as Shell V-Power e V-Power Nitro+, a Ipiranga DT Clean, a Petrobras Grid, a ALE Plus.

Crédito da foto: Marco Escada

 

O que é octanagem?

Octanagem é um índice de resistência do combustível à detonação da mistura ar-combustível que se inflama pelo aumento de sua temperatura devido à compressão. É por isso que recomenda-se usar combustível de alta octanagem em motores turbo, motores com injeção direta e motores flex. Hoje os motores modernos têm sensores de detonação, que fazem a ECU modificar o ponto de ignição para proteger o motor, disparando a centelha antes do ponto em que a compressão detona a mistura.

Se você usar uma gasolina de octanagem baixa em um motor com taxa de compressão elevada (10,5:0 ou mais), poderá ocorrer a detonação e a chamada “batida de pino”, que é o ruído gerado por um choque de ondas dentro da câmara de combustão. É prejudicial ao motor por elevar demasiadamente a temperatura na câmara de combustão e pode até deformar ou perfurar o pistão e outros componentes internos caso continue acontecendo por um período prolongado.

E usar alta octanagem em um motor de baixa compressão (como os mais antigos) estará apenas gastando dinheiro desnecessariamente, uma vez que não é preciso de uma gasolina com maior resistência à detonação. Se seu carro tem taxa de 6:1 a 10,5:1 (ou 10:1 se não tiver sensor de detonação) a gasolina de IAD 87 é suficiente.

Atualmente o mercado brasileiro tem cinco gasolinas de alta octanagem, as consideradas premium. Elas são a V-Power Racing, da Shell, a Petrobras Premium, e a ALE Premium, todas com octanagem IAD 91; a Ipiranga Octapro, com octanagem IAD 96 (95,95), e a Petrobras Pódium, com octanagem IAD 97. Todas elas são aditivadas, e todas têm 25% de álcool anidro adicionado em vez dos 27% das gasolinas comuns.

Qual a octanagem do etanol?

O etanol hidratado que é usado como combustível aqui no Brasil tem índice antidetonante (IAD) 99,5. Isso quer dizer que ele suporta taxas de compressão maiores que as melhores gasolinas encontradas no país. Mas seu poder calorífico é mais baixo: são 7,69 kW/kg para o etanol contra 12 kW/kg para a gasolina. Devido à baixa procura exclusivamente pelo etanol, muitos distribuidores não se interessaram em desenvolver aditivos específicos, por isso não temos etanol aditivado.

Curiosidade: um carro a etanol pode ser abastecido com álcool hospitalar 96º GL. Como o etanol vendido no posto, ele também tem 4% de água. Obviamente o preço do litro do álcool hospitalar não compensa o abastecimento regular, mas em caso de emergência pode ser usado sem danos ao motor. ATENÇÃO: Não é para carro flex, é para carro exclusivamente à álcool! Não é álcool de cozinha, é o mais puro de 96° GL!

 

Como decidir qual combustível devo utilizar?

Normalmente se usa a simples matemática: se o etanol está abaixo de 70% do preço da gasolina, ele vale a pena. Mas não é bem assim que funciona na prática.

Quem tem carro flex já percebeu que essa relação não funciona sempre — depende muito da forma de dirigir e da engenharia do motor. Tratando apenas do mérito dos parâmetros relacionados a combustão (não vamos considerar corrosão nem injeção eletrônica), o etanol é vantajoso principalmente quando o motorista utiliza o motor por períodos mais longos de tempo (sempre na temperatura ideal). Portanto se você usa o carro apenas em trajetos curtos (motor resfria seguidamente ao desligar), a gasolina é melhor.

O motor trabalha com excesso de combustível durante a fase fria com etanol (devido ao calor latente de vaporização) do que com a gasolina. Esse excesso ocorre devido a evaporação do etanol que é deficiente a frio, é necessário injetar ainda mais combustível para garantir que seja o suficiente para a combustão. O excesso na gasolina também ocorre mas em uma escala menor, logo você joga menos combustível fora com motor frio.

O etanol também é vantajoso se o motorista costuma rodar com altas rotações (condições de muita carga) pois a combustão gera gases de escape menos quentes neste combustível. Motores de baixa cilindrada costumam girar mais alto, pela falta de torque em baixas rotações.

Então é recomendado etanol para motores de baixa cilindrada que usam alto giro do motor por mais período de tempo.

E gasolina para motores de maior cilindrada, que utilizam menos giro e períodos de uso mais curtos.

Mas não é regra. Cada motorista precisa sentir o consumo e calcular na hora de abastecer.

 

Foto de capa: Notícias Automotivas

Fonte: Notícias AutomotivasFlatOut, BestCars

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