Dono de uma garagem/oficina incrível no bairro Floresta em Porto Alegre, o Teodoro Janusz, advogado e piloto da velha guarda abriu seu espaço para que o f1ponto8s tivesse prazer de visitar, fotografar e falar sobre sua paixão sobre o DKW e partilhar com nossos assinantes todos os brinquedos que ela contém… alguns são os mesmos dos quais sonhamos quando criança!

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Na garagem ficam cerca de doze relíquias da DKW na década 50 e 60, sendo que alguns foram importados da Alemanha; além é claro de um exclusivo F5 de 1937, conversível. O grau de detalhamento e a quantidade de artigos antigos é tão grande que nos remete a época em que estes carros circulavam normalmente em nossas ruas.

O raríssimo DWK F5, com motor de 2 cilindros é único no Brasil, mas no momento encontra-se totalmente desmontado (veja as fotos). Pela conversa que tivemos com o seu dono, este carro requer um trabalho de 18 meses para chegar a sua restauração completa. Soma-se a esta empreitada a dificuldade para comprar as peças devido ao ano e a exclusividade do veículo; o Teodoro nos relatou ter comprado um único painel existente na Grécia e, que a direção foi importada da Polônia.

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Este modelo marcou uma era histórica na DKW, que foi de 1937 até 1953, onde os motores de dois cilindros e dois tempos de 700 cm³ eram importados pela Auto Union para o Brasil.

Outro veículo interessante exposto é o DKW 1000 SP, importado de Frankfurt na Alemanha em 2005. Inspirado no Ford Thunderbird surgiu através da visita de um dirigente da Auto Union aos EUA que gostou do modelo americano e solicitou que seus engenheiros fizessem um modelo semelhante. Carburador zenit (corpo duplo), bomba da água, homocinética em vez de cruzetas e freio a disco são as diferenças para os modelos da DKW no Brasil.

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Falando sobre história automobilística, com suas palavras, o Teodoro explicou que no período de 1962 até 1964 a DKW foi a primeira fábrica no Brasil a ter carros de competição transformados para rua. Naquela época, carros como Simca e a Alfa Romeo JK eram carros muito pesados para competir e o Gordini era pouco potente. Com o domínio da DKW nas pistas, em 1965 a Willys Overland reagiu trazendo o Alpine através da sua parceria com a Renault, que no Brasil recebeu o nome de Interlagos.

Com a chegada do Interlagos, carro com relação peso x potência muito boa, a DKW se viu encurralada a tomar uma decisão: produzir um veículo tão rápido e bonito, que seria capaz de superar o rival nas pistas e em vendas!

Desenvolvido por Pedro Molina e Francisco Vaida sob supervisão de Rino Malzoni, o GT Malzoni teve seu início de produção em 1963. O modelo era produzido com carroceria de fibra de vidro em um composto de 2+2, e possuía motorização do DKW de 50cv (que eram modificados para ter 100cv nas pistas). Devido ao sucesso do GT nas corridas, a DKW solicitou a Rino que desenvolvesse um modelo para as ruas.

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Em 1966, Rino Malzoni partiu para a fabricação do Puma DKW com a missão de criar um modelo de rua, com linhas tão modernas quanto o Malzoni, mas de acabamento refinado. Ele contou com o apoio do designer Anísio Campos e de Jorge Letry, ex-chefe de competições da Vemag para transformar seu projeto em realidade.

Com visual semelhante ao seu irmão mais velho, a produção do Puma DKW teve início de produção em 1967 e, o sucesso das pistas repercutiu imediatamente nas vendas, onde foram vendidas as 135 unidades fabricadas. Porém, com a compra da Auto Union pela VW na Alemanha e posterior fechamento da Vemag no Brasil, o Puma DKW teve sua produção encerrada naquele mesmo ano (janeiro de 1967 a outubro de 1967). Em 1968 o Puma já vinha com motorização VW, o que torna este modelo raríssimo…

Outro fato interessante relatado pelo Teodoro é: que retirando as carrocerias, todo o restante como chassi, motor e caixa dos DKWs de três cilindros eram são exatamente iguais; claro, fora a diferença da cilindrada de motorização e o fato de alguns veículos possuírem bomba da água e freio a disco e outros não.

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O Teodoro afirma que seus carros foram todos restaurados da fora original, ou seja, sem réplicas ou peças adaptadas…

No canto da oficina pudemos observar o DKW Belcar número 88, todo preparado para corrida, que foi feito em homenagem a um piloto que estava fazendo a curva Tala Larga em 1971 no autódromo de Tarumã. Em 2011 este mesmo piloto presenteou o Teodoro com um quadro retrô com uma foto de quando ele fazia a mesma curva anos depois.

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Quando surgiu a paixão pelos DKWs?

Com de 15 anos de idade, o Teodoro teve a oportunidade de conviver em uma oficina mecânica do seu futuro primo (casado com a prima do Teodoro) que era especialista na mecânica de DKW e também preparava os carros para as corridas.

Quando atingiu a idade permitida, ele frequentava o Autódromo de Tarumã como bandeirinha (sinalizador), para poder participar das corridas de DKWs. Aos 18 anos de idade o Teodoro comprou o primeiro automóvel do seu primo mecânico, um DKW modelo Belcar ocre que está com ele até hoje, há 35 anos…

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Devido à grande oferta de mercado e a falta de espaço para os carros, durante algum tempo, o Teodoro passou a dedicar-se a navegação (velejar) e ficou afastado dos DKWs. Porém com o tempo, seu filho: Gabriel Janusz incentivou seu pai a retornar com a restauração e a aquisição dos carros.

Incentivado pelo filho, Teodoro comprou o terreno e montou a garagem, que conta com uma coleção de onze DKW de diversos modelos, sendo que dez estão ali e um restaurando fora. A decoração da garagem foi feita com quadros e utensílios comprados em suas viagens, além de capôs de carros que competiram com ele… é simplesmente incrível!

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Antigomobilista monomarca, ele nos fala da dificuldade de conseguir um mecânico que saiba e queira trabalhar em um carro antigo: “Quem conhece já está morto!”  Por vezes, o próprio acaba trabalhando na mecânica dos carros nas horas vagas.

Relatando suas experiências como piloto, ele nos contou como surgiu a Fórmula Classic no RS…

Em 2002/2004: Ricardo Trein trouxe para o nosso estado as corridas de carros clássicos, onde os carros competiam nos mesmos moldes que eram as corridas em 1970/1980. A primeira prova foi no aeroclube de Belém Novo, onde os carros foram testados. Na segunda vez, os pilotos alugaram o autódromo de Guaporé para poder correr.

Com os carros cada vez mais rápidos e competitivos, a Federação Gaúcha interviu e normatizou a Fórmula Classic: “santo antônio”, luvas e capacete começaram a fazer parte dos itens obrigatórios da categoria. O fato é que a participação nas corridas se dá pelo o orgulho com que o Teodoro nos mostrou a sua coleção de troféus.

dsc_6541-14 dsc_6550-15 O fato é de que paixão do Teodoro pelos DWKs que se iniciou na adolescência, com a participação nas corridas como sinalizador, perdura até hoje com os “brinquedinhos” acumulados na sua garagem.

Um pouco mais do Teodoro

Advogado há mais de 30 anos, aposentado recentemente, tem sua paixão por DKWs como hobby e a oficina/garagem que visitamos é um espaço particular onde ele restaura os carros com a sua cara!

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O espaço, assim definido pelo Teodoro, é uma oficina com ambiente gourmet dedicado a família e amigos entusiastas de automobilismo. Com muita alegria o f1ponto8s foi convidado a participar das reuniões dos entusiastas do automobilismo e quem sabe encontrar outro apaixonado como o nosso entrevistado!

 

Curiosidade

O desenvolvimento do GT Malzoni de fibra levou à criação da empresa chamada Lumimari (depois substituída pelo nome Puma), constituída por: Genaro “Rino” Malzoni, Mário César de Camargo Filho (primeiro piloto da Equipe Vemag), Milton Masteguin e Roberto. O carro, com o logotipo DKW Malzoni, era oferecido em duas versões, a denominada: “Espartana”, com acabamento rústico e destinada às competições e outra mais refinada, com bancos de couro e forração interna, para uso no dia-a-dia.

Inspirado na Ferrari 250 GTO 1962, o GT Malzoni foi construído para ser um carro de pista. Ele tem excelente relação peso x potência devido a espessura fina de sua carroceria e não ter nenhum tipo de acabamento interno.

A década de 1960, nascimento do GT Malzoni DKW, é conhecida como “Os Anos de Ouro” do automobilismo brasileiro. Época que foi marcada pela saudável rivalidade entre as marcas que tinham se instalado recentemente no Brasil: além da DKW, a Willys com o Interlagos, a Simca e a FNM com o Alfa Romeo JK. A Volkswagen corria por fora com os Karmann-Ghia Porsche preparados pela concessionária paulista Dacon (dois com motor 1.6 de 120cv e dois com 2.0 de 200cv).

Outra história lendária da DKW no final da década de 60 foi a final das Mil Milhas Brasileiras, em 1966. A prova foi liderada durante a madrugada pelo GT Malzoni, que era conduzido por dois jovens pilotos: Emerson Fittipaldi e Jan Balder, seguido por outro Malzoni pilotado por Marinho e Schurachio. Em terceiro, a poderosa carretera Chevrolet Corvette de Camilo Christófaro e Eduardo Celidônio, com um motor de sete litros de cilindrada.

Ainda mais sobre o Puma…

As diferenças entre o Malzoni e o Puma DKW estavam nos detalhes: Fibra mais espessa, bomba da água (arrefecimento do motor), interior com forração de teto e acabamento nas portas, freio a disco nas rodas dianteiras, freio de mão, calotas e piscas.

#f1ponto8s

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Entrevista e texto: Paulo Vinícius

Fotos: Marco Escada

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