Nem sempre o reluz é ouro. E nem sempre o que é mais novo é melhor. Claro que a tendência é sempre a evolução, a melhoria de tecnologias e mais facilidade de uso geral. Isso inclui design, acessibilidade, comodidade, praticidade… Porém o erro também faz parte do ser humano, e às vezes acontece. Assim como o uso equivocado de novas tecnologias e a ganância por aumentar a lucratividade e reduzir custos. E aqui está o “calcanhar de Aquiles”: baratear peças e vender cada vez mais quantidade com menor qualidade.

Recalls são constantemente convocados pelas montadoras, como fez recentemente a Volkswagen com a maioria dos seus carros atuais. (Veja aqui se o seu não está na lista!) Portanto, às vezes as montadoras reconhecem seus erros. Mas muitas vezes não assumem, o que deixa muito “carro bomba” entre os usados.

Alguns carros novos continuam mantendo velhas carcterísticas, ou por sua confiabilidade ou puro conservadorismo. Mas podiam evoluir em alguns pontos: freio traseiro à tambor e sem um simples piloto automático, Nissan Kicks?! Pino no canto para destravar a porta, Hyundai HB20?! Pleno ano 2016 e apenas um único comando de válvulas, Fiat, mesmo no lançamento Toro?! Isso já é atraso…

Pino na porta do Hyundai HB20 é um contraste com seu design. Crédito da foto: QuatroRodas

Pino na porta do Hyundai HB20 é um contraste com seu design. Crédito da foto: QuatroRodas

A questão downsize já foi aborada aqui, mas é incrível como muitos motores 1.8 e 2.0 ainda são desejados quando possuem menos potência e maior consumo do que os atuais 1.4, 1.3 e 1.0 de muitas montadoras.

Mas vamos nos dirigir à alguns casos bem específicos de carros nacionais:

Peugeot 206 x 207

Crédito da foto: Marco Escada

Quiksilver 1.6 16v: a versão mais requintada do modelo. Crédito da foto: Marco Escada

O 206 foi um lançamento global da Peugeot para os anos 2000, o mesmo projeto inovador sendo igual para todos os países no mundo (isso inclui Brasil e França), sucesso de crítica e público. Foi campeão de diversos Rallys, mostrando sua excelente estrutura e resistência. Os motores eram o econômico 1.0 compartilhado da Renault, e o potente 1.6 16V compartilhado com a Citroën (que para o Brasil vinha importado da Argentina). Posteriormente vieram a ser fabricados os 1.4 e 1.6 Flex, mantendo sua boa economia. Segurança era ponto alto, com duplo airbag, freio à disco nas 4 rodas em algumas versões e excelente estabilidade. Isso faz dele um sucesso de vendas, mesmo entre os usados.

Campeão de rally. Crédito da foto: FlatOut

Existia ainda um kit WRC, com parachoques maiores para homologar o carro que se tornaria Campeão de rally. Crédito da foto: FlatOut

No Brasil, o Peugeot 207 é um grande disfarce, pois na verdade ele é um 206 “abrasileirado”Chegou a ser exportado para europa com nome de 206+ (também apelidado de 206,5) para ser mais barato que o 207 francês, ou seja, um 206 com facelift para ficar parecido com o verdadeiro 207 e soluções tupiniquins de engenharia. A nacionalização de algumas peças, piorou – e muito – a qualidade final do produto. O mesmo vale para seus irmãos SW (perua) e Passion (sedã).

Claro que mantém as suas qualidades, como conforto, design, prazer em dirigir, potência, economia… É um ótimo carro para guiar e possui muitos fãs. Muito entusiastas adoram fazer personalização e tunning, usando para trackdays e rallys.

Alguns recalls foram divulgados para seus proprietários para correções. Isso não impediu diversas ações na justiça contra a montadora.  Mas as alterações mecânicas no Brasil (cerca de mil peças da montagem na fábrica) visaram reduzir custos e usar peças mais baratas, o que compromete a qualidade e duração das mesmas. Aumentou o barulho interno por causa de peças duras e de ruim encaixe; aumentou o custo de manutenção pela reposição mais breve das peças (que já não era barato); perdeu em segurança devido a piora da suspensão e freios.

Crédito da foto: AllTheCars

207 nacional: melhor só na aparência. Crédito da foto: AllTheCars

Em comparação rápida, o 207 brasileiro – e sua versão perua e sedã – teve nova central eletrônica mais lenta e problemática, assim como a bomba da direção hidráulica e sistema anti-poluição, perdeu os discos de freios traseiros (nas versões top de linha) e suspensão independente também na traseira (que causava certa manutenção, mas garantia a melhor estabilidade). Ficou mais pesado, perdendo relação peso x potência. O sistema de arrefecimento foi revisto, mas assim como demais peças mecânicas, utilizando materiais mais pobres. O mesmo vale para o painel: aperfeiçoado, mas com materiais muito simples e duros, que causam barulho. A soma de pequenas e constantes quebras acabam desvalorizando demais este modelo. A manutenção preventiva que alguns donos não fazem acabam fazendo ainda pior fama dos projetos franceses.

207 Verdadeiro: só na europa. Crédito da foto: CarPlace

207 Verdadeiro: só na europa. Crédito da foto: CarPlace

O 207 verdadeiro só foi fabricado na europa, e lá sim, é um carro totalmente reformulado e mais avançado. E a “menina dos olhos” da montadora sempre foi a versão Quiksilver: com acabamentos exclusivos de muito bom gosto em todos os modelos de apelo jovem e esportivo (desde o 106, 206, 207, 307 e 308). Sem falar do GTI (205 e 208), mas aí é outra história! Mas todos eles, independente da versão, tanto os nacionais quanto os importados, são carros muito bons no quesito custo x benefício: confortáveis, econômicos, boa potência e design. O que pesa é a manutenção…

Up! Brasil x Up! Alemão

Aqui não tomamos 7×1, pois fizemos mais de um gol (sem trocadilhos com o antigo popular da VW). Sim, o Up! nacional tem algumas vantagens sobre o europeu. Mas foge de suas origens desenhadas pelo brasileiro Marco Antônio Pavone (na época gerente de design da Volkswagen da Alemanha).

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Protótipo ao lado do brasileiro… Crédito da foto: AutoRealidade

A proposta era ser um substituto do Fusca quando foi apresentado pela primeira vez no Salão de Frankfurt em 2007: motor traseiro, compacto por fora, grande por dentro e preço popular. Daí para a primeira fabricação em Bratislava, na Eslováquia, muita coisa mudou. A tração passou a ser dianteira, o espaço interno ficou apertado e o preço já não era de um “Fusca pé-de-boi” (este Fusca merece outra matéria, aguardem!). Ganhou requintes de acabamento e design que não chegaram a torná-lo algo de luxo como o New Beatle e atual Fusca, mas dignos de um concorrente ao Smart e Cinquecento na europa.

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Desenho original: vidro traseiro acompanha o design curto. Crédito da foto: CarPlaceUOL

Aqui foi remodelado, claro. Começou perdendo a tampa de vidro traseira, substituída por uma de metal. Os engenheiros defendem ser menos vulnerável à assaltos, o que reduz custo de seguro (sério?!), mas a verdade é que perdeu seu principal charme. Tanto que a versão TSi ganhou pintura preta na tampa, para tentar aproximar desta característica mundial do Up! E a outra grande (agora sim, um trocadilho) modificação foi torná-lo maior do que o projetado. Sim, esticaram a traseira dele para acomodar 4 portas (exigência do consumidor local), ganhar espaço no porta-malas e caber um estepe obrigatório no Brasil (lá fora tem apenas um kit de reparo) e aumentar o tanque de combustível. Tudo isso porque o brasileiro quer um carro único para família, seja para circular na cidade, seja para viajar, enquanto no primeiro mundo o Up! é um segundo carro a ser utilizado apenas para uso urbano. Pode ter resultado prático, mas perdeu muito no design.

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Brasileiro alongado. Crédito da foto: NotíciasAutomotivas

A suspensão foi reforçada e elevada em 20mm, e o teto em 6mm, ficando um carrinho alto, o que prejudica e estabilidade e a aerodinâmica, que também sofre por ter menos defletores na parte inferior (trocados por plásticos de proteção). Ainda mais agravados na versão “aventureira” (cof!) que tanto agrada ao mercado. Alguns acabamentos por aqui são mais baratos e simplificados, como de costume. Conta-giros enorme no centro do painel, com velocímetro menor ao lado da versão GT Up!… esquece. Se serve de consolo fizeram a Speed, com faixas e retrovisores azuis (!) esportivados.

GT Up! Só importado... Crédito da foto: iG

GT Up! Só protótipo em salões… Crédito da foto: iG

As boas características permanecem: um dos carros mais seguros do segmento, segundo a LatinNCAP. super econômico e potente para um 3 cilindros 1.0 turbo, fazem deste um dos motores mais modernos do mundo. Prático na cidade, baixo custo de reparabilidade (troca de peças da lataria) e a confiança da rede de concessionárias da montadora. Não conseguiu nem de perto o feito do Fusca, mas já é um sucesso.

Futura versão GTi só na europa. Crédito da foto: RevistaAutoEsporte

Futura versão GT com mais cavalaria confirmada só na europa. Crédito da foto: RevistaAutoEsporte

Vectra Nacional x Astra Europeu

Esse nem precisa falar muito. Depois do primeiro modelo importado (que tinha até versão GSi!) e a primeira geração nacional do Vectra (que tinha retrovisores que acompanhavam a linha do capô, lembram?) primavam por excelência na qualidade e design, o que foi um salto na indústria nacional, o mesmo não pode ser dito na segunda geração feita por aqui.

Desde os anos 70 o Brasil tem o Kadett rodando por aqui com outros nomes: Chevette, Marajó, Chevy e Monza! Após conseguir autorização do governo para colocar em um carro o nome de uma patente militar é que oficialmente chegou o verdadeiro nome entre nós. Mas aí já estava no fim de seu ciclo, quando a nova geração passaria a se chamar mundialmente com o nome de Astra.

Lançado oficialmente na europa, a geração Astra H reformulava o estilo de design da Chevrolet, porém era um carro intermediário para padrões de primeiro mundo. Mas para o Brasil seria considerado carro de luxo, então ao ser adaptado para nossas terras recebeu o nome de: Vectra.

Astra! Digo, Vectra... Crédito da foto: CarBlog

Astra! Digo, Vectra… Crédito da foto: CarBlog

O motor continuava praticamente o mesmo defasado do Monza (!), bem diferente do moderno Ecotec europeu. Se mecanicamente ele era atrasado, o que dirá em materiais de acabamento. Pela primeira vez um “Vectra” tinha plástico duro no painel. E o mesmo foi aplicado na sua posterior versão hatch, batizado de GT (e até um top de linha GT-X, que nada evoluiram mecanicamente, apenas acessórios como o pioneiro GPS no painel – hoje em desuso).

Crédito da foto: BestCars

Crédito da foto: BestCarsUOL

Contudo é um excelente carro: espaçoso, confortável, confiável… e ainda dá status ao brasileiro classe média. Bonito com certeza é, e até hoje faz sucesso!

Citroën AirCross

Aqui a montadora usou do truque de muitas outras (né Fiat Uno Way) lançando um carro “aventureiro”, já que esse estilo vende muito por aqui. A versão AirCross só existe no Brasil, ainda que exportada para alguns países como a Argentina. Para desespero para os designers franceses que nunca imaginaram que fariam isso no C3 Picasso.

Versão exclusiva brasileira. Crédito da Foto: BlogCarro

Versão exclusiva brasileira. Crédito da Foto: BlogCarro

A transformação, claro, piora o carro que não foi feito pra isso. O estepe do lado fora (item primordial para um “fora-de-estrada”! – mas extinto no modelo 2017 devido à tantas reclamações) prejudica as dobradiças da tampa traseira, o que acaba gerando barulho e levando muitos consumidores a reclamarem com a fábrica. Isso sem falar do rack no teto, acessórios plásticos externos, pneus para uso misto mais altos… tudo gera piora aerodinâmica e consequente aumento do consumo de combustível. Além da manutenção cuidadosa que é preciso ter com os franceses, oposto à proposta de colocar ele em estradas de terra.

O atual modelo 2017 dispensou o estepe externo que tanto dava problemas. Crédito da foto: FotosECarros

O atual modelo 2017 dispensou o estepe externo que tanto dava problemas. Crédito da foto: FotosECarros

Mas para quem quer um carro requintado, sofisticado, confortável e com design diferenciado (polêmico), o AirCross é uma boa opção. Tem muito a oferecer e é um bom custo x benefício.

A lista poderia continuar com outrosaventureiros” (Gol Rallye, CrossFox, SpaceCross, Sandero Stepway, HB20X, EtiosCross, Linha Fiat Adventure, Spin Active, Livina XGear, Fiesta Trail, 206 e 207 SW Escapade, Fit Twist…), pois é prática comum no Brasil. São bons carros, alguns ao menos oferecem suspensão mais alta, mas outros nem isso. É questão de design, e nesse ponto é válido: o carro precisa representar o dono, e cada um tem seu estilo!

 

Em breve colocaremos outros exemplos de carros aqui.

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Foto de capa: MotorClube